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O presidente da Eneva, Lino Cançado, defendeu que a exclusão do gás natural das fontes elegíveis para atender aos critérios de descarbonização previstos na política para atração de investimentos em data centers, o Redata, representa uma tentativa de criar uma “reserva de mercado” para fontes renováveis.

Durante conversa com jornalistas na quarta (17/6), no evento do setor elétrico Enase, no Rio de Janeiro, o executivo argumentou que empreendimentos como data centers necessitam de suprimento contínuo de eletricidade, o que torna inevitável o uso de fontes despacháveis, como térmicas a gás.

“Se você não colocar [o gás], esses datacenters com energia renovável em algum momento vão necessitar de energia da rede”, afirmou. 

Segundo Cançado, “o datacenter tem que funcionar 24 horas, quando você não tiver o recurso renovável, o datacenter vai ter que retirar da rede, vai ter que acabar vindo o gás natural”. 

Na avaliação do executivo, a discussão sobre excluir o gás natural do Redata reproduz tentativas anteriores de privilegiar determinadas tecnologias

Cançado comparou o debate ao texto que chegou a constar da Medida Provisória das Zonas de Processamento de Exportação (ZPE), que caducou no ano passado. O texto previa que empreendimentos instalados nessas áreas — como data centers — fossem abastecidos exclusivamente por energia renovável proveniente de novos projetos.

“Mais uma vez é uma tentativa de criar uma reserva de mercado, dando um sinal de preço para uma coisa que aumenta um problema do sistema”, disse.

A posição da companhia está alinhada ao seu modelo de negócios, baseado na integração entre produção de gás natural e geração termelétrica própria, defendendo o combustível como complemento à expansão das fontes renováveis intermitentes para garantir atendimento contínuo a cargas como as dos data centers.

Defesa do LRCAP e críticas a recursos de concorrentes

Cançado também saiu em defesa do resultado do mais recente Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP), do qual a Eneva foi a principal vencedora, com 5,06 GW contratados entre usinas a gás natural e carvão mineral.

Segundo ele, o certame respondeu a uma necessidade estrutural do sistema elétrico e não deveria sofrer novas tentativas de contestação por parte de agentes derrotados.

“A necessidade do que foi vendido nesse leilão é inegável por qualquer agente do setor”, afirmou, acrescentando que a homologação pela Aneel reforça sua expectativa de continuidade do processo.

O executivo também atribuiu parte das críticas sobre o preço contratado ao fato de o país ter passado cinco anos sem realizar os leilões previstos originalmente para ocorrer de forma anual.

 “A gente demorou muito tempo para ter o leilão”, disse, argumentando que a concentração de demanda elevou naturalmente o volume contratado e os custos.

Na visão do presidente da Eneva, prolongar disputas judiciais compromete a capacidade de expansão do setor. 

“Se tudo que você está frustrado, quiser diferente e entrar na justiça, o país para, ninguém faz mais nada, todos se formam em advocacia e nós vamos brigar uns com os outros o resto da vida”. 

A empresa já iniciou a construção de projetos contratados no leilão antes mesmo da conclusão de todas as etapas formais justamente para cumprir os cronogramas estabelecidos.

Os resultados foram homologados pela Aneel na semana passada.

Mercado de baterias ainda é prematuro

Sobre armazenamento de energia, Cançado avaliou que o Brasil ainda não está preparado para uma contratação em larga escala de baterias.

“Acho que talvez é um pouco prematuro na contratação de bateria no Brasil”, afirmou, argumentando que ainda são necessários estudos para identificar os locais onde a tecnologia efetivamente agrega valor ao sistema.

Para ele, uma contratação inicial servirá como aprendizado para aperfeiçoar futuros certames, incluindo incentivos econômicos adequados que pudessem estimular investimentos privados sem necessidade de grandes leilões centralizado.

“Entender aonde as baterias realmente fazem mais sentido e, em leilões futuros, ter esse sinal locacional ou sinal de preço. Acho que o sinal de preço vai motivar os agentes a colocarem bateria sem necessidade de organização de um leilão descentralizado”, disse.

Este mês, o MME anunciou as regras para os dois primeiros leilões de contratação de baterias do Brasil, previstos para dezembro.

Venezuela entra no radar de expansão

O presidente da Eneva confirmou que a empresa acompanha oportunidades na Venezuela diante das mudanças regulatórias e do potencial de investimentos no setor energético do país.

“É um país que tem uma mudança regulatória e de administração significativa que reduz um risco gigantesco de investir na Venezuela”, afirmou.

Segundo ele, o país demanda praticamente todas as competências desenvolvidas pela companhia no Brasil. 

“É um país que precisa de tudo que a Eneva tem capacidade de fazer, seja no upstream, seja no downstream, seja na geração. Então, claro, a gente tem interesse, estamos estudando Venezuela”, declarou, ressaltando que ainda não existe parceiro definido nem projetos concretos.

Cançado destacou ainda que a recuperação da produção petrolífera venezuelana dependerá de investimentos em geração elétrica. 

“A Venezuela já está com o racionamento de energia na maior parte das cidades do país. Se você for aumentar a produção na Venezuela (…) vai faltar energia. Você não aumenta a produção nesse nível sem energia”, afirmou.

Novo terminal de GNL no Sudeste está em estudo

Em relação à infraestrutura de gás natural liquefeito (GNL), Cançado informou que a Eneva já contratou o navio de armazenagem e regaseificação (FSRU) destinado ao projeto do Ceará, atualmente em adaptação em Singapura.

Para um novo empreendimento previsto para o Sudeste, a companhia ainda avalia alternativas de localização.

“A gente tem um projeto no Sudeste que ainda não está definido exatamente, nós temos três possibilidades. Como é um projeto para  2031, que nós temos mais tempo, ainda não está fechado exatamente”, disse.

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